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O Tango Que se Baila

                                                                                                                        Por: Ney Homero S. Rocha

Já há algum tempo, no ambiente do tango aqui no Rio de Janeiro, vez por outra, alguém se refere a celebre frase de Enrique Santos Discépolo (1900 – 1951), como sendo: O Tango é um sentimento triste que se baila. Comigo não era diferente até setembro do ano 2000, quando fui a Buenos Aires procurar o maestro Horacio Ferrer na Academia Nacional de Tango, da qual ele era e, ainda é, o presidente.

 

Na ocasião estava com meu livro, Tango Uma Paixão Porteña no Brasil, pré- editado e precisava obter do maestro sua autorização para publicar citações que nele havia feito, de trechos da história do tango, extraídos e traduzidos do famoso compêndio de Horacio Ferrer, Un Siglo de Oro Del Tango - Manrique Zago Ediciones – B. Aires – 1996.

 

O maestro Ferrer, pessoa muito gentil e atenciosa, recebeu-me com fidalguia. Uruguaio de natureza, mas radicalizado na Argentina desde muitos anos, é considerado por afinidade como sendo de origem porteña, pois tem sido neste País, sua grande obra criadora dedicada ao tango. Todos o têm em conta como uma autoridade das mais respeitáveis em matéria de tango, uma referência internacional e não apenas por seus conhecimentos que vem de tradição familiar, mas também por toda sua vida dedicada à cultura do tango, tanto na literatura, quanto através de suas famosas criações musicais e teatrais.

 

Ferrer examinou o protótipo de meu livro que seria lançado três meses mais tarde, em dezembro de 2000, manifestou-se contente, interessado e de certa forma surpreso pelo trato desta matéria com uma visão brasileira. Elogiou o trabalho, mas fez uma restrição quanto à frase de Discépolo, que constava da contra-capa do livro, tal qual citada anteriormente, que segundo ele não estava correta, pois segundo ele a sentença correta é “ El Tango es um Pensamiento Triste que se Puede Bailar”.

 

Então, olhei para ele e cuidadosamente perguntei-lhe: mas é assim que se fala no Brasil a respeito desta frase e não é a mesma coisa? Ele respondeu prontamente: “No! No es la misma cosa. Si quieres escribir de esta manera, lo único que tienes que hacer es no poner el nombre de Discépolo abajo de la frase. Pues ésta que aqui veo no es la frase suya. Debes respetar al autor de la frase”.

 

Assim, imediatamente me dei conta de teria de ser como ele acabara de dizer e então lhe pedi que escrevesse de próprio punho a frase correta e que assinasse, para que com sua autorização, eu pudesse escaneá-la e colocá-la na capa definitiva do livro. De início, ele relutou educadamente em fazê-lo, considerando o fato de respeitar e não rasurar o texto do livro, mas insisti dizendo-lhe que se tratava de um rascunho e que livro a ser publicado ainda seria revisto antes de sua edição definitiva.

 

Então, ele concordou em escrever de próprio punho esta famosa frase de Discépolo e não somente me autorizou a colocá-la na contra-capa de meu livro como também a publicar os textos, traduzidos por mim, de sua obra que constam no livro, com a devida citação de sua fonte.

 

Este fato dito assim, em princípio parece não trazer muita importância, mas na verdade é extremamente importante, pois, se temos uma referência como Ferrer, porque duvidar e porque acreditar que o correto é dizer a frase de Discepolín como é dita aqui no Brasil? A forma como é dita esta frase aqui no Brasil nos conduz a um sentido genérico que nos leva a admitir que o autor ao dizê-la afirma que todos os tangos são pensamentos tristes que se bailam.

 

Já, a forma correta, segundo Ferrer, nos leva a conclusão de que o tango é um pensamento triste que até se pode bailar, mas não nos conduz a conclusão de que todos os tangos são pensamentos tristes que se bailam, Aí está a grande diferença. Não é uma afirmativa genérica, mas ao contrário, exclusiva a certos pensamentos tristes que podem ou não ser bailados, ao contrário em se afirmar que todos os pensamentos tristes são bailáveis e que como tal são o tango.

 

A importância de esclarecer este detalhe permite a compreensão correta da intenção do autor e daí extrair as conclusões e interpretações cabíveis, ou seja que ... "O Tango é um pensamento triste que até se pode bailar”.

 

Vivendo e aprendendo! e, aproveito para citar um pensamento meu que também está na contra-capa de meu livro, logo abaixo do manuscrito de Ferrer, que retrata o que o tango e vida, a vida e o tango me ensinaram nestes 18 anos de convivência com o tango, assim definido: A Vida Nunca é Tango, mas o Tango é Sempre Parte de Uma Vida!  

N.H. S. R. – 2000.

 

Rio, RJ 08/09/2005

N.H.S.R.


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Página criada em 08/09/2005 - atualizada em 07/12/2006

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